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O Morro dos Ventos Uivantes, escrito por Emily Brontë; tradução de Oscar Mendes. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

Escrever à margem, colocar bandeiras para marcar a página, usar marca texto para sinalizar uma passagem. Terminar a leitura, folhear as páginas, manusear e observar o livro. Nada disso parece suficiente para reter para si um clássico. Este texto, inclusive, não é suficiente para esgotar o que tirei de Morro dos Ventos Uivantes.

A estrutura do livro me surpreendeu por si só. Não acompanhamos o ponto de vista de nenhuma parte do famoso casal que norteia o livro, mas uma terceira pessoa, uma ama que acompanha o crescimento dos jovens personagens até a morte de cada um, sobrevivendo a todas intempéries que acontecem na família. E, além disso, ela retoma o passado – toda a desgraça que tinha para acontecer, já ocorreu no primeiro capítulo; e tentamos descobrir junto ao protagonista, o sr. Lockwood, o inquilino de uma das casas, como a história se levou àquele ponto.


Nelly Dean, a empregada narradora, foi uma boa surpresa. Dotada da razão (diferente dos demais personagens que seguem puramente as emoções, como em um romance romântico), ela me lembrou a formação das tragédias greco-romanas. Veja o exemplo de Fedra, de Sêneca, que se apaixona pelo filho do marido. Em sua dor e sofrimento, do começo ao fim sua ama a aconselha a deixar aqueles sentimentos de lado – e ignorando seus conselhos, Hipólito morre para a ira do pai, levando Fedra ao suicídio. 


Pensando assim, gostaria de focar minha atenção nos conselhos de Nelly, de forma que a história vai se seguir gradativamente em torno da ignorada ama.


Na adaptação de 2011, dirigido por Andrea Arnold, 
a história segue o ponto de vista de Heathcliff.

A impressão que Heathcliff não é uma boa pessoa não é solucionada com um “arco de retenção” como eu esperava. A bem da verdade, ele é cruel do início ao fim; mas, para ser sincera, em seus discursos sofridos feitos ao expressar o amor à Catarina, tive que relembrar o homem cruel que ele é. Ainda assim, a imagem que tenho dele é a testemunhada por Lockwood ao dormir pela primeira e única vez no Morro. Heathcliff, em seu tormento, abre as janelas em meio à tempestade e clama para a alma de Catarina ir ao seu encontro.


A aparição dos Linton vai culminar em um invejoso Heathcliff. É o momento de Nelly aconselhar o jovem rapaz. Para apartar aquela discórdia, pede para ele não alimentar o ódio pelos maus tratos sofridos: “as pessoas orgulhosas forjam, elas mesmas, para si os mais tormentosos pesares”. Reflexivo, o rapaz comenta como gostaria de ter a pele alva e cabelos louros; e ela diz que, se ele criar um bom coração, será belo, “mesmo que você fosse um verdadeiro negro.” Aqui é oportuno deixar o lembrete: polêmica discussão, em que as adaptações de Wutherings Heights retratam nosso cigano como branco. Ora, nessa mesma cena, Nelly aconselha a nossa ainda criança a fantasiar: seu pai era um Imperador chinês e sua mãe uma rainha indiana. A forja desses dois, tenho certeza, não nasceria uma criança branca.


Na adaptação de 2011, a diretora escolheu um Heathcliff negro.

E o espírito de Catarina? Se me peguei furiosa com o abandonado e adotado Heathcliff, não menos com Catarina. Não estamos sozinhos durante a narrativa: “Confesso que não gostava mais dela”, narra Nelly, “desde que adolescera” (os livros antigos nos apresentam verbos até então não magináveis). Comparo Catarina a um cavalo indomável, cheia de dar coices. Personagens de espírito livre me são admiráveis, se não manipuladores e agressivos, que os tornam intoleráveis. 


É oportuno o momento para dizer: não suporto narrativas que me irritam, seja pelos acontecimentos ou pelo agir dos personagens; sinto os autores se esforçando para criar uma situação chata e taxar o interlocutor como um tolo. Não senti isso, entretanto, com O Morro dos Ventos Uivantes. Há uma construção, bem utilizada entre as trezentas páginas, que sela a curiosidade; e talvez Nelly novamente tenha a gratificante participação nisso tudo, pois é ela quem está ali para amparar, ou melhor, externalizar o pensamento racional do leitor. 


Heathcliff é a dicotomia de Linton, rapaz culto e delicado, respectivamente assim descritos: “o contraste era semelhante ao que o senhor sentiria ao passar duma região erma, montanhosa, encarvoada, para um vale ridente e fértil”. Linton, inocente rapaz, tem Catarina em um pedestal, até ser ele mesmo o alvo da agressividade e mentiras da garota. Humilhado, deixa uma Catarina sozinha e em prantos. Bondoso demais! Hesita a porta, mas é incentivado por Nelly a deixar a geniosa e mimada garota. Não é ouvida; assim que retorna, o pedido de casamento é feito.


A cena seguinte é uma declaração que marca o início de toda a tragédia. Após aceitar o pedido de Linton, Catarina sente grande culpa e pesar; aceitar o pedido, como ela mesma diz, não parece ter sido a coisa certa a fazer, mas um grande mal. Como em Fedra, a cena usa recursos retóricos para mostrar o erro de Catarina. Os motivos dados para casar com Edgar Linton – bonito, jovem, alegre, rico – são facilmente contraditos. Catarina faz a primeira declaração de amor a Heathcliff, que ouve tudo sem ser notado. Nelly torna-se impaciente com o discurso da garota – que sejamos sinceros, duram algumas belas páginas de alguém que chora por não gostar do que se decide, mas não é capaz, por qualquer que seja seu senso, de voltar atrás.


Assim, Catarina e Heathcliff, pavorosos heróis, separam suas realidades: ela, recatada e manipuladora mulher; ele, rústico e vingativo homem. 


Anos mais tarde, Catarina Linton está em uma situação agradável. Com um marido paciente, não tem razão para ser intempestiva, apesar de muitas vezes se encontrar em estado apático. Eis que Heathcliff volta para perpetuar os mais terríveis sofrimentos – e uma imensa felicidade e euforia em Catarina. Como declara Nelly, “tinha um pressentimento no íntimo do coração de que teria sido melhor que ele não houvesse reaparecido.” 


O personagem de Edgar Linton me faz pensar: em que posição ele se encontra nessa tragédia? O homem bom que ama a heroína, mas não é amado por ela; aquele que separa nossos heróis, mas não tem intenção de criar nenhuma maldade com isso; totalmente inocente, também não é dotado da razão como Nelly – mas muitas de suas ações me são coerentes: chora, quase que derrotado, diante do reencontro dos dois.

O reencontro de Catarina e Heathcliff é quase uma declaração de um amor apaziguado pela distância. [Heathcliff] Assentou-se diante de Catarina, que conservava o olhar fixo nele, como se temesse que fosse sumir-se, caso ela o desviasse de seu rosto.” Enquanto ele a contempla, Catarina, tão admirada, segura as mãos do rapaz em grande deleite. Essa situação ocorre diante de um Linton incapaz de fazer algo. Nelly, mais tarde, dará um sermão em Catarina: “Para que fazer elogios a Heathcliff diante dele? [...] Quando crianças não se gostavam, e Heathcliff não toleraria, da mesma forma, que você fizesse o elogio de seu marido diante dêle.” Catarina é incapaz de pensar na infelicidade do marido, taxando-o de infantil. Por outro lado, é capaz de mostrar-se enciumada de Heathcliff, quando este usa do amor de Isabel para mostrar um súbito interesse pela garota. Esta vai ser a primeira tragédia que Heathcliff, de natureza imutável, vai proporcionar na vida das pessoas à sua volta.


Por sua vez, é Catarina quem vai desencorajar a garota a esquecer essa paixão, compartilhando, com sinceridade e pela primeira vez, a ciência atroz que tem da índole do homem. Afinal, de onde parte esses comentários? Assumo que seja do ciúmes (mesmo ela negando logo em seguida), ou será uma tentativa genuína de salvar a família da desgraça que seria aceitar a mão de Heathcliff?


E é a ama quem vai corroborar com Catarina: “A Sra. Linton falou severamente e contudo não encontro modo de contradizê-la”. Os discursos são suficientes para Isabela achar que Nelly (ou Helena, como a tradução escolheu adotar) e Catarina estão contra ela. 


A repulsa de Heathcliff pela irmã Linton é evidente, mas também suas mágoas. Diz à Catarina, referindo-se a Isabel: “Tenho direito de beijá-la, se ela consente. E tu não tem o direito de te opores. Não sou teu marido. Não precisas, pois, ter ciúmes de mim.” 


Heathcliff reconhece a tortura que Catarina proporciona a ele, e declara que fará o mesmo a ela. O ciúmes dele é tanto, que declara ser capaz de matar Edgar, se não soubesse que Catarina o estima em algum nível. Porém, ele é ciente que o tratamento dela para com o marido é igual ao de um cachorro, e sua superioridade em relação a ele: “para cada pensamento que ela concede a Linton, há mil concedidos a mim [...] [Edgar] não conseguiria nunca amá-la, em oitenta anos, tanto quanto eu a amo em um dia.”


Edgar é incapaz de refrear a esposa, a qual seu temperamento é comparado a estar possuído por um demônio. Um demônio, veja bem, voluntário, ou seja, invocado por Catarina sempre que lhe era proveitoso; ou ao menos, dessa maneira a ama vai apresentar a situação. Dessa forma, incapaz de resolver o assunto com Edgar, que a questiona de ainda amar outro, Catarina cai em um estado de doença denominada cólera.


A cena que ocorre na cama da moribunda Catarina seria um cenário romântico, mas se converte logo em um um berço de ódio. As palavras da mulher são cruéis; ela deseja a morte como liberdade, mas conclui que não estará em paz se separada de Heathcliff. Porém, o cerne da situação em que se encontraram por anos é finalmente questionada pelo homem: “
Tu me amavas… que direito tinhas então de me deixar? [...] quando nem a miséria, nem a degradação, nem a morte, nem nada que Deus ou satanás pudesse infligir-nos poderia separar-nos, tu, por tua própria vontade, o fizeste.” Suas perguntas não são respondidas, mas os dois se reconciliam no leito de morte da mulher. 


Catarina, em seu estado, tem um filho precoce, para logo morrer. Alucinado pela morte de Catarina, Heathcliff declara: “Dizes que te matei, persegue-me, então! [...] torna-me louco! Só não quero que me deixes neste abismo, onde não te posso encontrar!”. Helena, testemunha dessas palavras, não se alarma, e pouco faz para acalmá-lo. 


O romance da Srta. Linton e Heathcliff, uma vez iniciado, tem como resposta de Edgar a renúncia à irmã. No primeiro ano de casamento, Isabel, proibida de pisar na casa do irmão, envia cartas – quase de socorro – à Helena. Pergunta-lhe, evasivamente, sobre os temperamentos do marido; pede que a visite; e conta como foi recebida na sua nova casa, o Morro dos Ventos, pelo sobrinho Hareton e o Sr. Earnshaw. Ela, em pouco tempo, procura algum aliado contra Heathcliff, e por um breve momento, deslumbra a ideia de matá-lo. Ora, vejo os comentários que deixei à margem do livro: “por acaso casou-se sob ameaça?”, e me lembro da sensação de parecer, e perceber na garota, uma leve inclinação que temos em confiar que algo bom pode vir de algo perverso, e que essas suposições, plantadas na nossa cabeça, não são inteiramente verdadeiras. Vejamos Isabel como vítima, manipulada pelo próprio bom coração. Assim também escrevo: “o que tiro da situação de Isabel? Alguém manipulado pela paixão é tão rapidamente desiludido?” Nas palavras de Heathcliff, Isabel deixou o conforto da casa, dos amigos e parentes, para agarrar-se à ilusão do cavaleiro que retorna ao lar. A fábula romântica criada é facilmente destruída, mas a bondade da garota não: tentou, nas palavras dele, ganhar-lhe o coração ainda diversas vezes depois dele mostrar-lhe ser um homem sem escrúpulos. 


Isabel ainda tem esperanças que Heathcliff a ame, mas esse seu pensamento instantâneo é cortado pela própria realidade. Hindley procura em Isabel uma aliada para sua vingança contra Heathcliff, mas ela tenta impedi-lo de causar mal ao marido. Associo a força que a domina como “culpa cristã”. Entretanto, insensível, Isabel declara que não se incomodaria com a morte nem de um, nem de outro. Eis, em suas palavras, que o sofrimento de Heathcliff só lhe daria maior prazer se saísse de suas próprias mãos. Aqui está o que ela faz: Heathcliff, um homem derrotado pela morte da amada, após uma briga com Earnshaw, recebe palavras cruéis e fervorosas de Isabel, que foge-lhe da ira como uma gazela feliz e livre.


Assim como o filme já citado aqui fez, as informações seguintes do livro – estamos na metade dele – não serão trabalhadas neste texto. Passaríamos a outro tipo de análise com outros personagens, o triângulo amoroso do ignorante Hareton, a inflexível Cathy e o hipocondríaco Linton, e novamente o fracasso de Nelly em não causar mais dissabores na família.


Como no último texto, “O Morro dos Ventos Uivantes” é declarado como um romance gótico. Ao fim do livro, Heathcliff, em sua morte, vai declarar acreditar em fantasmas, e em suas visitas ao túmulo da amada, acredita tê-la visto e ouvido. Ele também declara “Digo-lhe que já atingi quase o meu céu. O dos outros não tem para mim valor, nem atração.” A recusa da religião cristã é uma marca característica de, por exemplo, o vampirismo. Heathcliff, inclusive, é comparado por Dean a uma criatura das trevas, um vampiro ou lobisomem, um espectro, pois da onde viera aquela criatura morena que causaria toda aquela ruína? Quase entrega-se, nossa personagem dotada de razão, à superstição. O Morro fica para os fantasmas – ou, de acordo com Nelly, os fantasmas agora dormem em paz.


Para quem chegou até aqui, saibam que os representantes dos jovens Heathcliff e Catarina, não fantasmas mas vivos, encontraram a felicidade.


Um abraço e até a próxima!
T.S.

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