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A Abadia de Northanger, Jane Austen. Tradução e prefácio de Julia Romeu. Edições BestBolso, ed. 2011.


Antes de entrar no mundo literário de Jane Austen, conheci pelo menos uma adaptação cinematográfica de cada um dos seis romances publicados pela autora. Além da sua opus magnum, a curiosidade de ler os demais livros da clássica escritora inglesa foi sendo postergada, até que, respeitando minha animosidade eventual por romances, busquei na estante virtual uma edição de bolso da Abadia de Northanger (porque as edições de bolso me são mais queridas). Descobri a BestBolso, antigo selo editorial da Record. Não irei fazer nenhuma análise técnica, como escolha de capa ou o tipo de papel; ela satisfez todas minhas necessidades: conheci uma das histórias mais graciosas que Jane escreveu.


Aqui, assumimos a narradora sendo a própria Austen, que se coloca em primeira pessoa para contrastar as heroínas dos romances de sua época com a sua heroína, Catherine Morland, e falar de um gênero tão desprezado: A Abadia de Northanger é uma paródia dos livros góticos. Romances eram a sua época escritos majoritariamente por e para mulheres, considerados fúteis e meras distrações (como ainda são considerados). A informação apreendida é que Jane Austen lia estas mulheres: em um dado momento, ainda no início do livro, ela cita algumas obras: Os Mistérios de Udolfo (em que o nosso livro vai ter como participação principal) e O Italiano, de Ann Radcliffe; O Castelo de Wolfenbach e Avisos Misteriosos de Eliza Parsons; Clermont, de Regina Maria Roche; O Órfão do Reno, de Eleanor Sleath; O Necromante da Floresta Negra, Lawrence Flammenferg; O Sino da Meia Noite, de Francis Lathom; e Mistérios Horríveis, do Marquês de Grosse; estes três últimos escritos por homens (agradeço, Julia Romeu, por explicitar os autores na nota de rodapé). Considere que, se na época eram livros populares e menosprezados, hoje são considerados clássicos da literatura gótica.


Livro póstumo, mas um dos seus primeiros escritos e recusados (e que permaneceu sem revisão), temos uma escrita bastante crua de Jane. Ainda assim, me impressiona a profundidade na criação dos personagens e na análise social feita pela própria. Além disso, há a presença de traços de um refinado humor: “...ambos foram impedidas de prosseguir por um cabriolé que passava por cima dos buracos, dirigido por um rapaz muito hábil com toda a veemência necessária para colocar em risco a vida dele próprio, de seu companheiro e de seu cavalo”.


De todos os heróis austenianos, Henry Tilney, sem dúvidas, é o mais encantador: sensato, educado, e acima de tudo, engraçado. Para os entusiastas, eu recomendo o vídeo How to Attract Henry Tilney de Ellie Dashwood; e aproveite para se aventurar pelos comentários do vídeo, porque, como apontado, uma das qualidades de Tilney é “he’s a good driver”. Para os leitores do romance, é uma referência bastante icônica.


E se por vezes estranhei o humor do Sr. Tilney, sua própria irmã o intercede para defendê-lo: seu humor é próprio e ele deveria usá-lo somente com pessoas que se sente à vontade, mostrando o grande carinho que tem por Catherine ao permitir-se fazer comentários ácidos à garota. Quando poderia ter feito picuinha pelos imperdoáveis mal-entendidos de Catherine, que não foram poucos, ele se vê atencioso e disposto a ouvi-la. E, diferente do Sr. Thorpe, não menospreza o gosto de Catherine pelos romances, mas afirma ter eles em alta conta, inclusive, é um grande apreciador de Ann Radcliffe. Acrescento outras qualidades: é bom de conversa – e saber conversar e suportar a Sra. Allen não deve ser tarefa fácil – sobre roupas, romances e afins; consegue escutar uma conversa sem ser desagradável e é extremamente educado e engraçado. Ora, sempre irei lembrar do sorriso travesso do ator J.J. Feild quando atiça a Felicity Jones, na adaptação de 2007. 


J. J. Feild como Henry Tilney e Felicity Jones como Catherine Morland,
em A Abadia de Northanger (2007), dir. Jon Jones


Falando em bons condutores, apresento o pior antagonista do casal dos romances de Austen, o improvável e vaidoso John Thorpe: homem rude, mau caráter e mentiroso. Eu, que não gosto de passar raiva em livros, e tanto o irmão quanto a irmã Thorpe me tiveram em fúria, admito que isso, por outro lado, só aumentou meu encanto pela postura da nossa heroína Catherine. Ele, que fiquei surpresa que da metade do livro – quando ela vai à abadia – até os momentos finais, não volta a aparecer: imaginei que iria a qualquer momento arruinar algo. Surpresa bem pensada por Austen, ao colocar que, tanto a estadia quanto a expulsão dela da abadia, foram correlacionadas diretamente com o Sr. Thorpe! Palmas ao brilhantíssimo desempenho desse insuportável.


Da mesma forma, Isabella Thorpe, amiga e companheira de Catherine, por diversas vezes discursa sobre a estupidez dos homens, e fala coisas ao contrário do que pensa. Talvez tenha sido sinceramente uma boa amiga da Catherine, que lhe serviu de companhia, conforto e influência (é Isabella quem a apresenta Udolfo), mas não uma boa pessoa. Catherine a tem em alto grau, a ponto de ser cega pela afeição; porém, essa amiga é prometida a seu irmão James Morland, mas passa a flertar dissimuladamente com o capitão Tilney, irmão de Henry. Catherine preocupa-se com essa postura, tendo os sentimentos do irmão em jogo, mas a esse ponto do livro, ainda parece incapaz de formar uma opinião convicta do caráter da amiga. 


Agora, acompanhemos o arco de evolução da nossa ignorante heroína.


A força da heroína é testada ao ser persuadida por seus amigos que tanto prejudicam suas relações, e tentam manipulá-la durante todo o período do livro. Sua resistência a leva a resultados incríveis: sua amizade com os Tilney é firmada. Sinceramente, aqui mostrei meu favoritismo pela heroína, pois todos os momentos em que achei que ela cederia a manipulação dos Thorpe, ela conseguiu ter colhões para resistir. Afetada por seus amigos, ela se submete ao processo de vergonha e culpa. Determinada a se desculpar com os novos amigos, eles se prontificam a perdoá-la diante de sua sinceridade.


Quando a heroína é convidada para passar algum tempo na abadia, o general, pai dos Tilney, dissimula sua real intenção com comentários gentis e perspicazes. Insinua o casamento do filho, exaltando as qualidades de Catherine. Entretanto, apesar dessa aparente gentileza, existe uma tensão crescente sempre que o general está presente, sendo um alívio às personagens quando não está. Sua indiferença, frieza ou evasiva sobre o assunto da esposa falecida faz crescer na cabeça fértil da heroína uma situação como em Os Mistérios de Udolfo. Sua imaginação a leva à vergonha e à um sermão do herói. Catherine, não mais movida pelo alarde, é tranquilizada pelo próprio Henry, “O terrível Henry logo apareceu na sala de jantar também, e a única diferença no comportamento dele para com Catherine foi que estava bem mais atencioso do que o normal. Ela jamais precisara tanto de conforto, e ele parecia saber disso.” Entretanto, apesar da tranquilidade que volta a experimentar, a heroína é surpreendida ao ser expulsa repentinamente da abadia. Diferente do filme, onde é expulsa de forma imediata no meio da noite, no livro, ela se retira pela manhã; o que torna a situação menos perigosa, mas não menos aflitiva – uma jovem garota fazendo uma travessia tão longínqua e sozinha. 


A situação humilhante, dito por Sra. Morland como uma “violação das leis da hospitalidade”, leva a uma reflexão sobre o crescimento pessoal da heroína. Sra. Morland declara que sua filha provou que “sabe se cuidar, não é indefesa”, mas isso não impede a garota de sentir abatida e humilhada. Enquanto pensa nos amigos que perdeu, Catherine tem a surpresa de receber Henry Tilney na sua casa. O iminente pedido de casamento é narrado pela autora, e a falta da fala direta das personagens diminuiu ou restringiu qualquer impacto que a cena pudesse ter. Mas, em uma ode à filmografia, deixo a declaração do casal da adaptação cinematográfica já citada anteriormente: 


H: I have broken with my father, Catherine, I may never speak to him again. [Eu cortei relações com meu pai, Catherine, e talvez nunca volte a falar com ele]

C: What did he say to you? [O que ele disse para você?]

H: Let me instead tell you what I said to him. I told him that I felt myself bound to you, by honor, by affection, and by a love so strong that nothing he could do could deter me from... [Em vez disso, deixe-me dizer o que eu disse à ele. Eu disse à ele que me sinto conectado a você, pela honra, pela afeição, e por um amor tão forte que nada que fizesse poderia me deter de…] 

C: From what? [Deter de quê?] 

H: Will you marry me, Catherine? [Casa comigo, Catherine?] 


Em uma das minhas anotações sobre o livro, deixei uma questão: o livro é uma defesa à ingenuidade? 


Digamos que a heroína não é acostumada a formar o próprio julgamento. Veja que, se a sra. Allen é superficial, incapaz de opinião própria, a ponto de repetir diversas vezes a fala do marido, por outro lado, acolhe Catherine em Bath. Ainda, o sr. Allen consegue aconselhar a heroína com nitidez, e encorajar sua conduta. Assim, o julgamento da heroína vai se transformar ao decorrer do livro, sua inocência vai ser algo amadurecido. A ponto de admirar Sr. Tilney, mas se ver confusa com o sentimento da paixão: “e ela estava quase tão pronta a admirar aquilo que não entendia quanto aquilo que entendia”. Ela também se recusa a acreditar que alguém está falando-lhe mal: “Eles se afastaram, sussurrando algo. A delicada sensibilidade dela não ficou imediatamente alarmada”. Por outro lado, nos inteligentes diálogos entre Henry e Catherine, Catherine não fica para trás em suas réplicas, apesar de sua simplicidade. Ela não é perspicaz como uma Elizabeth Bennet, mas é uma garota bem-aventurada, capaz de conquistar a felicidade com sua indulgência. Veja que Catherine passa a achar muito cedo o sr. Thorpe insuportável e desconfia do seu vendido “charme” e “histórias baratas”, mas por tê-lo em alto grau por ser irmão da melhor amiga e melhor amigo seu irmão, ela acha que deve suportá-lo. E, mesmo ao descobrir a verdadeira faceta dos Thorpe, ela se sente incapaz de odiá-los, apesar de decidir cortar os laços com a família, ao recusar responder a carta enviada pela Srta. Thorpe. Afinal, o que há de encantador em Catherine? O início do livro recusa Catherine como uma típica heroína: “Ninguém que houvesse conhecido Catherine Morland durante a infância imaginaria que ela nascera para ser uma heroína de romance.” Sua paixão pelo Sr. Tilney poderia ser marcado pelo sofrimento logo cedo, ao ver o rapaz acompanhado de uma bela e elegante moça. Sem hesitar, ela credita a moça como sua irmã, não sua esposa. Logo em seguida, sua presunção é bem avaliada ao se tornar amiga e companheira da Srta. Tilney. Henry Tilney elogia a integridade da jovem garota, e acredito que muito dos seus sofrimentos foram evitados por sua inocência. 


Ao encanto de personagens inocentes, um grande abraço e até a próxima,

TS.

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